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Não imaginas, nem fazes ideia....

 Mas por mais cordas que coloque, mais armas, mais vantagens, mais benefícios, mais amor, mais relação, mais alegria, mais envolvimento, basta um segundo dele a olhar para ti, para que toda uma construção com alicerces bem fortes, abane e pareça que vai cair como um simples castelo de cartas. 

Take 5 - Do que

 Olho-te, enquanto vestes a blusa, com gestos bruscos da pressa. "Nunca estivemos lentamente." Quase que o digo. Seguro, porque sei que vais virar rapidamente o teu rosto para mim, e com os olhos cheios de escudos vais dizer algo como, "Porque será?" ou um ríspido "Não percebi.", ou um "Ah?" magoado. E por mais que saiba que tens razão, ou que saiba perfeitamente que percebeste, ou que não tenha resposta à tua mágoa, deixo estas partículas no ar. Nesse ar que está tão pesado e tão leve. Ainda cheio de nós, impregnado do presente, sem réstia de passado ou possibilidades de futuro.  Sei que coras, enquanto lutas para vestires as calças. Com vagar, coloco o relógio, lentamente. Saboreio este momento, meio dormente, pungente, de ainda ter a tua pele, quente, contra mim.   Ouço-te tactear rapidamente o chão, procuras o telemóvel, o casaco, a mala.  Um barulho, dizes um palavrão baixinho, sei que bateste, descalça, no canto da cama.  Dou por mim a rir,...

Take 4

Viras-te enquanto o vestido escorre-te devagar pelas costas. Passo os dedos pelas saliências das letras ainda não cicatrizadas que escolheste colocar na pele. Na penumbra, que te esconde a cara, não consigo ver o que está escrito. Ouço na minha mente melodias e penso em duas ou três possibilidades. Percorro a tua pele lisa e paro na saliência da tua anca. Bruscamente voltas-te e beijas-me. Desejo-te violentamente nesse momento. Beijo-te os lábios, a cara, o pescoço, quase que te esmago as costelas ao agarrar-te. Levanto-te para cima da secretária. Ouço sons de cacos partidos, de metal e de vidro. As tuas mãos rápidas tiram-me o cinto, puxo-te para mim e beijo-te a boca enquanto as minhas mãos procuram rapidamente pedaços do teu corpo que preciso com urgência fundido no meu.

Take 3

Encontrámo-nos numa manhã que ainda mal anunciava a primavera. Sol e Vento. Trocamos banalidades. Estás parada à minha frente. Olhos secos. Espero. Alteram-se e ficam húmidos. Nunca te vi assim. (Nunca deixaste?). Dou dois passos. Os teus olhos ficam frios (ou receosos?), mas não te mexes. Dou mais um passo e tu oscilas.  Coloco a minha mão no teu braço e puxo-te suavemente. Olhas-me rapidamente antes de te fundires em mim. Abraço-te e surpreendo-me por me pareceres tão pequena, tão frágil. Parece-me que mil moléculas tuas se evaporaram para te encaixares. Tu, tão sólida, tão forte, tão sarcástica. Mantenho-me firme enquanto os teus ombros saltitam, e ignoro onde estou, o que quero, o que consegui. Penso "Finalmente" mesmo que seja errado.

Take 2

Atingiu-me. Diretamente nas entranhas. Palavras. São sempre as palavras. Ignoro-te. Propositadamente. Conscientemente. Porque mesmo indiretamente as tuas palavras atingem-me. Mesmo que não notes e não saibas. Mesmo que talvez te fira. Mas não posso lembrar-me das palavras que saiem de lábios que sei doces.

Take I

Nunca foste especialmente bonita. E tens um feitio exasperante. Não parece que te importes muito se não concordas comigo. E dizias. Com uma cara séria. Com os teus argumentos. Cortante. Às vezes pensei mesmo que não te importavas. És distante por vezes. Mas noutras... Adoro quando coras por ouvires o que não esperavas. A rapidez que tens a dar resposta às minha piadas. Mas não és bonita. Nem tão pouco atraente. Não fazes ideia do que me apeteceu abraçar-te naquele momento em que tremias de frio. Inspiração: Shakespeare e obviamente Carlos Drummond de Andrade